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Terça-feira, Setembro 02, 2003

Continuando uma linha de comentários.
Quando penso (e falo) sobre "Vontade" não estou falando de SAG ou qualquer coisa parecida.
Esses desenvolvimentos são internos de um grupo bem específico, e pintam o conceito com cores particulares.
Mas antes deve haver algo lá para ser pintado.

A palavra vontade denota algo que todas as pessoas percebem em si mesmas igualmente.
Agora, uma investigação filosófica sobre esse fato não pode assumir firulas de antemão, e de fato não pode assumir nada que seja capaz de rejeitar.

Senão, diríamos que a vontade é aquilo que a gente quer, e ficaríamos satisfeitos com essa formulação tão óbvia do senso comum.
Quem vai negar que a vontade é aquilo que a gente quer?
Porém, não me parece uma resposta aceitável ou significativa.
Se me perguntassem, eu diria que a vontade é aquilo que me leva a agir.
E mesmo essa última tem palavras demais.

Segunda-feira, Setembro 01, 2003

Eu acabei hoje de ler até a última tirinha: Avalon High
Estritamente falando, é um drama.

Uma maneira de investigação filosófica é se concentrar no que se é capaz de dizer sobre algo.
Assim, o que é "Vontade"?
Claramente, Vontade é algo intimamente ligado a um Ser específico.
O Ser percebe uma Vontade própria, e percebe que ela é algo que ele se sente impelido a realizar.
Sendo algo a realizar, a Vontade de uma pessoa é fundamentalmente descrita por um verbo.

Ocorre, seguindo-se essa linha de raciocínio, que essa pergunta está intimamente ligada a outra pergunta.
Por que o ser age?
Ou além:
Por que o ser age como age?
Apesar do espectro de possibilidades brutas de ações que uma pessoa poderia tomar em um dado momento ser muito grande, ainda assim um ser vivo típico comporta-se dentro de um conjunto previsível de ações, conjunto observável por um terceiro e por ele mesmo. Também se observa que quão mais racional for o ser vivo, menos desconexas umas das outras são as suas ações.
Observa-se algo nos seres que os impele a certas ações e não outras de maneira consistente, o que resulta num comportamento ao longo do tempo restrito a um conjunto muito menor que a infinidade de possibiliades. Os motivos encontrados para isso são vários, como sobrevivência, mas antes de haver um motivo para o fato, há o fato.

Aproveitando a capacidade de comunicação possível entre os seres humanos, podemos como seres humanos perguntar uns aos outros:
Por que fazemos isso, ou aquilo?
E a resposta mais direta sempre será:
Por que sim.
Mas a resposta oculta é:
Por que eu quero.
Nós fazemos o que fazemos porque queremos fazer.

Porém, esse pensamento entra em conflito direto com a observação de que em alguns momentos não fazemos aquilo que queremos.
É uma tática argumentativa desleal, mas, podemos reescrever isso como:
Observamos que em alguns momentos não fazemos aquilo que pensamos que queremos.
Esse pensamento faz realmente algum sentido?
Como se pode agir sem que se tenha vontade de agir?
Propor que o ser possa executar uma ação que não seja realizar sua vontade é propor que a vontade do ser é algo dissociado do agir em si.
Mas uma ação que, digamos, o corpo executa de maneira completamente dissociada da vontade é percebida pelo ser como algo estranho a si mesmo.
Um reflexo automático, como o clássico teste do martelinho no joelho, não é percebido como uma ação que o ser executa.