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Domingo, Setembro 30, 2001

Acho que, se eu tivesse pesadelos, o pesadelo que mais iria me aterrorizar seria um onde eu andasse pelas pessoas que eu conheço (e algumas que eu desconheço) e de repente não fosse capaz de me fazer entender por ninguém. Não precisaria nem mesmo que eu não entendesse as outras pessoas (apesar de que, em um outro pesadelo, isso seria realmente assustador), mas apenas que eu falasse e ninguém entendesse.

Talvez, ainda, uma versão mais sutil, e um tanto gótica, desse pesadelo seria um onde todos entendessem as *palavras* que eu dissesse, mas não o significado; então eu vagaria por um mundo onde todos fariam cara de completa dúvida, se perguntando "Pedro, não entendo. Como assim?"

Acredito que o único motivo por eu nunca ter precisado me apresentar isso como sonho é o simples fato de que esse é o meu cotidiano, senão constante, então freqüente. Não que seja culpa das outras pessoas. Mas também não acredito que seja culpa minha. Talvez não exista "culpa" (como se um crime tivesse sido cometido), e essa seja simplesmente a natureza das coisas. Como eu aqui, escrevendo, e provavelmente algum transeunte randômico que porventura venha a me ler não entende lhufas do que eu digo, ou talvez entenda um tanto, um pouco, muito, vai saber.

Nos últimos dias eu tenho sentido essa agonia com muita vividez. Os pensamentos voam infinitamente por todas as coisas que existem de tal modo que eu nem mesmo raciocino, simplesmente experimento, mas que por causa disso só deixam impressões, não idéias propriamente ditas; e se nem mesmo alguns pensamentos flutuantes são possíveis de se expressar, como passar para outra pessoa imagens-não-exatamente-imagens totalmente indefinidas?

Já estou morrendo de sono, mas sinto que ainda falta dizer alguma coisa. Sempre sinto que há algo que eu gostaria que os outros entendessem. Essa é a minha maior pretensão, acreditar que existe algo que se os outros entendessem, o relacionamento comigo seria infinitamente simples. Comigo e com o mundo, diga-se de passagem, mas a sensação de que a minha vida seria perfeita é vívida. Eu espero que não esteja certo, porque seria realmente frustrante se todas essas coisas que eu penso pudessem tornar a vida simples e verdadeira.

oh, céus.
Talvez eu escreva sobre elas num outro dia.
Chamei-as de Minha Interpretação da Lei versão 2001/2.

Terça-feira, Setembro 25, 2001

Komm, süsser Tod

I know, I know I've let you down
I've been a fool to myself
I thought I could live for no one else
But now, through all the hurt and pain
it's time for me to respect
the ones you love mean more than anything

So with sadness in my heart
I feel the best thing I could do
is end it all, and leave forever
What's done is done, it feels so bad
What once was happy now is sad
I'll never love again, my world is ending

I wish that I could turn back time
'Cause now the guilt is all mine
Can't live without the trust from those you love
I know we can't forget the past
You can't forget love and pride
Because of that, it's killing me inside

It all returns to nothing
It all comes tumbling down, tumbling down, tumbling down
It all returns to nothing
I just keep letting me down, letting me down, letting me down

In my heart of hearts
I know that I could never love again
I've lost everything
everything
everything that matters to me,
matters in this world...

Quarta-feira, Setembro 19, 2001

Estou morrendo de sono. Estou a duas horas tentando escrever "um programa que remova espaços em branco e caracteres de tabulação finais de cada linha de entrada e que delete as linhas inteiramente em branco" sem muito sucesso. O primeiro capítulo do Kernighan & Ritchie fala tão superficialmente sobre C e eu não consigo nem mesmo fazer todos os exercícios... Frustrante. Ao menos, desta vez, eu consegui resolver bem mais exercícios do que da última tentativa.

É interessante como ultimamente eu tenho tido tanto interesse em estudar e aprender. Eu tenho a impressão de que muitas coisas estão mais vivas para mim. Mas não é nenhum mistério porque as coisas deveriam estar acontecendo desse jeito... Já fazem três semanas desde que o meu emocional, que mais parecia uma água barrenta deixada parada até o barro assentar, ser remexido ao ponto de fazer tudo subir à tona. Todas as coisas parecem diferentes, há uma motivação extra nas coisas que eu faço...

Agora eu tenho um motivo pra fazer as coisas direito. Eu não me importo muito com o que acontece comigo, mas agora eu não sou apenas eu. Pela primeira vez.

Sábado, Setembro 08, 2001

A vidinha anda mais ou menos.
Faz algum tempo desde a última vez que eu entrei na Internet. Por uma circunstância bizarra do destino, tenho passado minhas madrugadas no *telefone*, e não na *Internet*. Não tenho do que reclamar, pra dizer a verdade.

De qualquer modo, nesse ínterim nada de notável me ocorreu para escrever. Nada de notável me ocorre para escrever *agora*, inclusive.

Se bem que ontem vimos A.I. Apesar do Sneak Attack básico no final do filme, com o qual eu já me acostumei, foi estupendo. Alguns trechos de diálogo curtíssimos, talvez até imperceptíveis, foram extasiantes, como quando David pergunta ao Gigolo Joe, Why did you do that? e ele responde: Because that's what I do. E isso não é verdade de todos nós? Nós fazemos o que fazemos porque somos quem somos; e se não fôssemos isso e sim aquilo, fariamos aquilo e não isso.

Aqueles partidários da hipótese do Destino Imutável teriam menos problemas se abandonassem seus Livros Cósmicos e Criadores Incomensuráveis e prestassem mais atenção a essa verdade evidente.

Terça-feira, Setembro 04, 2001

Por que eu deveria escrever essas coisas aqui, de qualquer jeito? Eu bem poderia colocar numa folha de papel, e guardar na gaveta.
Claro que essa é a graça do blog, mas talvez também seja porque parte de mim quer que outras pessoas leiam sobre essas coisas.

Mas com certeza não é a parte que escreve.
Então, vá embora. Não me leia mais.

Pensar em mim não faz bem à saúde...

Talvez eu seja apenas um covarde.

Estou me lembrando agora de um diálogo entre um homem-cavalo-marinho e Timothy Hunter. O homem-cavalo-marinho dizia pro Tim que ele vivia com medo de tomar decisões.

De certo modo, eu não sei como as pessoas conseguem viver tomando decisões. Eu mesmo só tomo decisões quando estou pensando em outras coisas e as decisões são tomadas meio que sem querer. Por que, porra, quando você *decide* alguma coisa você está escolhendo *uma* dentre *infinitas* possibilidades... Como saber se uma outra possibilidade não fosse a certa? Quem sabe uma que você nem imaginou?

Se você afetasse apenas a si mesmo, seria simples. Afinal de contas, quem se importa com o que acontece? É tudo um grande jogo da vida, qualquer coisa está valendo (ou quase, não vamos ser tão liberais). Mas quando entram as outras pessoas, não há indiferença que dure por muito tempo. Talvez dure mais no que concerne a grande massa desconhecida... Mas e as pessoas próximas? Aquelas que você escolheu ter próximas, aquelas que se jogaram nas redondezas sem aviso, caíram de pára-quedas... Sei lá, próximas.

As coisas que você faz se refletem nessas pessoas. Uma palavra mal dita, talvez até bem intencionada, mas mal calculada, alguma tolice... Nessas horas dá vontade de mandar todo mundo embora, afastar todo mundo pra garantir que não machuquemos mais ninguém... E nem mesmo podemos nos considerar grandes santos, porque talvez a ferida maior (ou no mínimo igual) seja em nós; ver o mesmo erro, recorrente, é desanimador...

Talvez seja por isso que eu viva o tempo todo nas nuvens. Nos sonhos, as coisas acontecem como desejaríamos. Mas os sonhos são um lixo. É como tocar punheta. Não é a mesma coisa.

Ouvir música não ajuda, porque o Winamp é um filho da puta:

oh i am what i am
i'll do what i wan't
but i can't hide...
i won't leave,
i can't hide,
i cannot be,
until you're resting here with me...

Domingo, Setembro 02, 2001

É bizarro o modo como algumas emoções se manifestam como sensações corporais.
Você está apaixonado, e sente um treco no estômago. Ou sei lá que órgão. Qual é o sentido disso? E se parar pra observar, é sempre no mesmo lugar. Talvez observando isso que os indianos (ou chineses, nunca sei quem foi quem) construíram toda a ciência dos chakras.

Que você sente calor, é default. Even pornographic. Mas imagina um poeta, "querida, meus rins se dilatam por você!" As ciências naturais transformam tudo numa chatice. Ao menos, aparentemente.

Mas o que importa tudo isso?
Isso é banal. Bizarro mesmo é se emocionar e então pensar em rins.
Ou estômago. Vai entender.

this is fuckin' awesome.

Echoes

Overhead the albatross hangs motionless upon the air
And deep beneath the rolling waves
In labyrinths of coral caves
The echo of a distant time
Comes willowing across the sand
And everything is green and submarine

And no-one showed us to the land
And no-one knows the where and whys
But something stirs and something tries
And starts to climb towards the light

Strangers passing in the street
By chance two separate glances meet
And I am you and what I see is me
And do I take you by the hand
And lead you through the land
And help me understand the best I can

And no-one calls us to move on
And no-one forces down our eyes
And no-one speaks and no-one tries
And no-one flies around the sun

Cloudless everyday you fall upon my waking eyes
Inviting and inciting me to rise
And through the window in the wall
Come streaming in on sunlight wings
A million bright ambassadors of morning

And no-one sings me lullabies
And no-one makes me close my eyes
An so I throw the windows wide
And call to you across the sky

- Mason, Gilmour, Waters, Wright