-- Esse mundo é muito estranho: eu brincava com ele na praia, aos cinco. Fazíamos fortes e Tácavamos bolas de areia uns nos outros. Foi uma boa memória.
-- Memórias
rulez.
Argumenta-se que, se não completamente, boa parte da Idéia do Eu se forma como um coágulo pelas memórias que guardamos. E, como disse Muhammed Ali, recordar é viver.
Algumas vezes, modelo o progresso do desenvolvimento de uma pessoa como proporcional a quanto ela gosta de se lembrar e quanto ela consegue se lembrar. Acredito sinceramente que uma pessoa sem memória dos eventos que se foram não viveu; ou melhor, se viveu, isso é irrelevante.
Estávamos em mais uma tarde no escritório, coçando o saco; FULANA se levanta lá do outro lado, FULANO está zanzando pelo corredor.
-- Ih, lá vem ela.
-- É, hoje está foda.
Recosto na cadeira. Minha tela está preenchida por alguma porcaria inútil.
-- Ai, gente, o tempo está passando tão rápido, né?
-- Ah, eu não acho.
-- Não?
-- Não. Eu ando me divertindo bastante.
-- Mas o tempo não passa mais rápido quando você está se divertindo?
-- Pra mim, não. O tempo passa tanto mais devagar quanto eu tiver coisas pra me lembrar.
Atravessar uma semana inteira e chegar ao final para pensar O que eu fiz essa semana sem lembrar de nada relevante é como olhar para trás na reta do tempo e não conseguir preencher esse segmento com conteúdo. Digamos que você foi a essa festa no final de Setembro. Estamos agora no final de Outubro. Se você olha pra trás no tempo e só consegue ver a festa, é como se todo o mês de Outubro fosse comprimido entre o dia de hoje e aquele dia há tanto tempo.
Pensa na amnésia alcoólica.
O tempo que passou entre aquele e hoje... é como se não tivesse acontecido nada. Extrapolando essa experiência, eu alcanço um vislumbre do que é alcançar o fim da extensão natural da vida e pensar O que eu fiz da minha vida? Eu não fiz nada. E se sentir desesperado, com pressa, por que há pouco tempo e houve tão pouca vida.
Mas todo mundo que vive sessenta anos vive sessenta anos, não? Como pode ser que uns cheguem lá já de saco cheio, e outros desesperados por fazer um monte de coisas que ainda não fez? Esta sensação de vazio, eu atribuo à esse buraco na memória de que se é consciente.
Ademais, não creio que seja possível atingir qualquer grau reconhecível de sabedoria sem a memória do passado. Por que quanto mais tempo você tiver (e com sorte ou habilidade mais experiências distintas) maior será a probabilidade de que tenha experimentado qualquer um dos defeitos que os humanos têm, e uma das muitas variadas formas da verdade, ou do amor, ou de qualquer outra coisa. Quanto mais você se lembra, é capaz de se lembrar, e apreciar essa memória, mais tolerante você deve fatalmente ser, e mais capaz de interagir com o que é outro.
Com freqüência confundem a minha idade e me dão muito mais anos de vida do que de fato eu tenho. (Isso acontece fundamentalmente por causa do pouco cabelo, e incidentalmente por outros motivos.) Mas eu me sinto mesmo muito velho, porque é muito raro que passe uma semana sem muitas e muitas memórias. Estou a vinte e três anos nessa vida e ao longo do caminho tomei decisões muito estranhas, muito ingênuas aqui, amedrontadas ali, mas por algum motivo bizarro mesmo os cursos tortuosos que eu tenho que seguir sempre são do tipo que me permite ter muitas e boas memórias.
Pois já disse o Imperador Norton: a gente se fode, mas se diverte.
É claro que, em particular para uma pessoa de auto-crítica tão viciosa quanto a minha, guardar todas as memórias possíveis pode ser uma experiência extremamente desagradável. Minimizante do orgulho, trazedora de humildade, dissolvedora do pedantismo e da arrogância; extremamente desagradavel, em suma.
Não estou falando da sua primeira nota ruim, ou da descoberta de que o Papai Noel não existe. Estou falando de memórias absurdas e sombrias, como aquela de uns nove ou dez anos, em que um surto de angústia sem sentido se apossou do seu pequeno corpo e você empurrou sem qualquer pingo de motivo o seu melhor amigo de cara no chão de barro. Ou quando um guri qualquer estava perturbando a sua irmã e você frente a frente com ele abaixou a cabeça e virou de costas.
Ou quando você disse que era tão bom que se fosse participar do jogo ia deseqüilibrar, e lembrar da expressão no rosto do seu outro melhor amigo, a visão da repulsa. Quando você não soube ir embora na hora certa. Ou até coisas mais ridículas, como quando ficou encarando as pernas da sua amiga sem querer.
Ou coisas tristes, como quando estava comprometido e ouviu uma declaração impensável, ou conheceu alguém prestes a ir embora. Ou simplesmente a memória de pessoas de quem você gosta mas que por força das circunstâncias não têm mais por perto.
O universo por fim se apresenta como o lugar dos ajustes: se você não foi particularmente acometido por coisas abomináveis das quais pode sem dificuldades sentir muita raiva, eventualmetne percebe que o modo como as coisas vão acontecendo não é injusto, é perfeitamente justo, justo no sentido literal: ajustado.
Eu confesso que sou dado a mergulhar muito fundo nas minhas piores memórias e ficar por lá tempo demais, tempo suficiente pra acabar cético quanto ao valor de me relacionar com os outros. (Especialmente a quantidade desse valor
para os outros.) Mas eu tenho boas memórias. Eu não tinha quatorze anos ainda quando fui chamado de espirituoso pela primeira vez.
Eu morei o início da minha infância nessa casa com um muro baixo que dava para a rua; eu gostava de deitar naquele muro estreito com a cabeça contra o muro do vizinha da esquina e ficar ali. Ou conversar com minha vizinha FULANA pelo muro dos fundos, e com as irmãs dela. Jogar queimado na rua ou na escola.
Eu me lembro de gostar da FULANA. E da FULANA também. E da FULANA, mesmo lembrando o jeito tosco com que ela me largou. (Depois do fato eu confesso que gostei bem menos.) E também da FULANA, que fez a mesma merda. E da FULANA. (Dessa vez o tosco fui eu.) E depois e depois.
Meu pensamento sempre retorna à mesma intuição. Como você pode continuar a vida depois de ter a visão de quem você é, e de como esse ser fatalmente resulta em justamente o que acontece? Pois o próprio fatalismo desaparece, junto com expressões como Tem Que, e novamente o universo surge como algo que simplesmente se ajusta e se multiplica mesmo que em diferenças sutis. Não há nada realmente fundamental em você se fuder ou se dar bem, isso tudo é realmente seu problema; as coisas são como as coisas são.
E, sinceramente, elas são muito legais, sendo coisas. Não sei exatamente como funciona isso, mas, mesmo lembrar do dia em que levei um chute no estômago de um sujeito que era meu amigo, mesmo a sensação de merda desse dia, é maneiro quando isso acontece. Justamente porque... foi uma coisa que aconteceu, é um acontecimento, é um modo de as coisas serem, e um modo que de fato foi, que exibe Eu em toda a sua glória (no caso, para um valor bem pequeno de glória).
Por que, como disse Bertrand Russel, 2 + 2 = 5, para valores extremamente grandes de 2.
Isso tudo me melhora? Acho que não. Eu continuo com todos os meus defeitos conhecidos, e mais alguns novos. Os que me conhecem desde a infância foram expostos a formas mais cruas dessas coisas; hoje em dia é tudo muito mais sofisticado. Creio que isso, sim, aconteceu: se eu sou arrogante, hoje a minha arrogância é uma
senhora arrogância, tão grande que em um dado ponto eu enjoei de convencer os outros de como eu sou bom, e me concentro em fazer com que me obedeçam. Acabo preferindo que sejamos produtivos pra não me cansar com você.
Eu ainda acho que estou sempre certo, só acontece que eu digo isso com menos freqüência; e passo a maior parte das conversas estimulando os outros a falar, porque afinal se eu abrir a boca, a conversa vai acabar ali. Por isso eu prefiro que você fale e eu ouça.
Eu sou tão pedante que hoje sou capaz de gostar de todo mundo, já que, entenda, como seria possível que eu fosse seletivo? Se eu começar a selecionar gente do meu nível pra andar comigo, eu vou ficar sozinho. Então qualquer um serve, e, como qualquer um serve, todo mundo serve.
Misture com álcool e afaste-se para a sua segurança.
Você acha que eu estou sendo engraçadinho, porque ninguém se declara assim uma merda, né? Passa um tempo comigo e você vai ver. Sou eu, que se há de fazer? Eu não posso ser outra coisa além de Eu, e todas as memórias de Eu mostram como Eu sou, de fato, Eu. A única coisa que resta é, já que Eu sou Eu e não vou mesmo ser outra coisa, então ser o
mais impressionante Eu que já existiu.
Afinal, já disse Caco, o Sapo: o Ser é o Ser.
[Citações absurdas em homenagem a G., o Sábio.]