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Segunda-feira, Outubro 31, 2005

Ânsia: Considerações

Se eu fosse a Ânsia, viveria uma relação de amor e ódio com o Tempo. Por que se por um lado é preciso que passe o tempo para que a coisa pela qual se anseia comece, por outro lado é pelo passar do tempo que a coisa pela qual se anseia termina.

E então surge o Medo: se está tudo como não deveria, medo de que nunca venha estar; se está tudo como deveria, medo de que mude.

Estava eu e Mamãe[tm] vendo televisão; surgiu uma meia-garrafa de Seleção tinto, daí pomos a mesinha com uns biscoitos e esses potinhos com umas maçarocas a base de gorgonzola e provolone. Um de cada, não misturado, senão ficaria uma boa merda. Daí eu ligo a televisão e começo a rodar os canais a partir do Cartoon em ordem crescente (dos números NATURAIS).

Daí surge um programa X, eu não entendo bem o que tá acontecendo pra decidir mudar, então paro ali.

[Tia Thoth] Ué, continua rodando aí, pô.
[Thoth] Mas ainda não deu pra saber que filme é esse.
[Tia Thoth] Ah, mas, ainda não rodamos todos os canais pra saber o que tá passando.
[Thoth] Sim, mas e se esse filme for bom? Vamos esperar pra saber.
[Tia Thoth] Não, roda todos, porque às vezes tem um filme melhor em outro canal.

A vida é emocionante.

[Nota do Tradutor: filme é o termo usado na família para toda e qualquer coisa que passe na televisão, exceto quando produzida por um vídeo-gueime, quando então se diz jogo.]

Sábado, Outubro 29, 2005

Eloqüência: Bits and Bytes

Quem conhece suas trajetórias desde a adolescência até sua fase quase-adulta!

Esse cara devia gostar de pular quando mais novo, sei lá, do muro, do segundo andar, ou talvez em cima dos outros... Imagino que ele deve conseguir saltos de uma altura incrível, se as pessoas notavam suas variadas trajetórias.

When I grow up I want to become a blitzball!

Irado! É só seguir uma dieta rígida de muitos carboidratos (segundo G., o Sábio) e poucos exercícios.
É bem mais fácil do que se tornar um blitzball player...

Essas tiradas sempre me lembram aquele momento tão prototípico quando li uma manchete anunciando o Início da venda de Alimentos Orgânicos no Brasil. Eu já estava mesmo cansado daquela dieta de sais minerais e água pura...

Quinta-feira, Outubro 27, 2005

Número Restrito

Vamos lá, seus molengas, e um, e dois, e três, e quatro, e cinco...

Terça-feira, Outubro 25, 2005

WSCAD I

Então estávamos neste mini-curso onde um sujeito de Minas Gerais propunha aos especialistas da área de Alto Desempenho uma maior interação com os profissionais de desenvolvimento de software para que estes dêem maior valor ao problema da performance durante o processo de desenvolvimento.

Então este sujeito disse Mas é totalmente inviável ensinar técnicas de otimização para programadores porque elas dependem sempre da arquitetura e a arquitetura muda rapidamente.

Então esse sujeito da Petrobrás, aquele sujeito insuportável que sempre discorda do palestrante em todos os pontos, se voltou para o sujeito anterior e com grande sabedoria soltou a seguinte pérola Ora, mas isso é um absurdo, o que você está dizendo então é que os médicos deveriam abandonar as suas técnicas a cada três anos, mas é claro que a medicina funciona da mesma forma há décadas.

Então eu resolvo interromper e digo Bom, é preciso considerar que a última alteração na arquitetura dos seres humanos ocorreu provavelmente há muitos milhares de anos...

Segunda-feira, Outubro 24, 2005

Revelação

Acabei de descobrir de onde está saíndo toda essa leitura e escritura. Não estava fazendo sentido até que obtive esta revelação.

Há mais de um ano que eu não acesso o IRC. Como nos tempos idos.

Esse é o segredo.

Horóscopo

Insistir no algoritmo que não tem funcionado, hoje, dará bons frutos.

Eventos recentes o deixaram nervoso; guarde bem sua mão esquerda.

Você receberá mais uma ligação de Número Restrito. Um grande mistério ronda o seu telefone celular.

Acordar às seis horas da manhã para chegar no hotel do WSCAD a tempo de se perder, não conseguir encontrar o auditório e ainda assim alcançar o mini-curso a tempo é atitude sábia.

Se lembrar de uma promessa é simplesmente a coisa a fazer.

[Merda, não levei o horóscopo a sério e agora as minhas unhas estão destruídas e doendo... Cadê a lixa?]

Domingo, Outubro 23, 2005

Conto: Ânsia II

Meu teto branco, todo esse espaço branco sem marcas, diferenças, é reconfortante, não me evoca nada, é o silêncio, a paz.

O falatório das coisas, os significados, implicações, encadeamentos, ortogonalidades, constantemente a circular no universo, constantemente a me chamar a observar, separar, discernir, ordenar, apreciar o valor, a fúria da existência ambígua de todas as coisas ora juntas ora separadas, constantemente ferindo a pele do meu ser com seu insuportável e inevitável atrito.

Ela está ao meu lado, mas a paz de me dissolver em sua presença, sua companhia, não se completa finalmente em nada; o calor incessante que emana do seu corpo sufoca, preenche as lacunas entre os meus órgãos, sou um vaso cheio até a boca transbordando ela, vou me afogar, vou me afogar.

Desespero diante deste solvente universal onde me encontro mergulhado, este solvente que corrói o que sou eu, erode o limite entre eu e ela, este inferno que consome os meus órgãos, separo nossos corpos, escondo, escondo minhas mãos, olho para cima buscando finalmente o paradoxal nada, o nada externo, que se distingue apenas de mim, o nada frio que não me alcance por dentro me tomando para si, afogando meus sentidos no insuportável prazer de ser com ela, também ela, não apenas eu, o calor se comunica pela infinitude do espaço, posso sentí-lo no espaço entre os átomos me desejando como o fogo deseja o combustível que é sua razão de ser, o fogo que me consome na fornalha insuportável do ser-junto, sinto apenas o contato do ar sobre minha pele e o lençol sob minhas costas e o teto que sinto com os olhos e sua respiração ofegante e o calor que emana do seu corpo se propaga pelo ar e seus pensamentos são um livro aberto diante de mim onde se lê apenas Eu e Você e Eu e Você está por toda parte e eu estou mergulhado no prazer insuportável de ser com você e um espasmo percorre o meu corpo em desespero, a cama cede e retorna pelo impulso desse desespero, estou indo, estou indo, me perdoe, deusa, eu não agüento mais.

[Afterthought:

Even as evil kisses corrupt the blood, so do my words devour the spirit of man. I breathe, and there is infinite dis-ease in the spirit. As an acid eats into steel, as a cancer that utterly corrupts the body; so am I unto the spirit of man. I shall not rest until I have dissolved it all.

Liber Cordis Cincti Serpente, I, 14-17.
]

Sexta-feira, Outubro 21, 2005

Festa à Fantasia

O Homem-Codorna sairá daqui a poucos minutos para salvar o mundo.

Quinta-feira, Outubro 20, 2005

FINALMENTE

Meu computador está LIGANDO! Que maravilha!
Custou mais de quatrocentos reais pra ele ligar, mas... mas... :~

Quarta-feira, Outubro 19, 2005

Eloqüência IX

Priapus meum major seus est.

G., o Sábio.

Rio Branco

A sede da Santa Casa fica lá na PUTA QUE PARIU, estou andando até o trabalho, e passando ali pela Almirante Barroso reconheço essa amiga de FULANA cujo nome não me ocorre agora, pelo quadril, pelo cabelo e pela distância entre a nuca e os ombros.

É completamente insano, mesmo eu sendo um bom fisionomista, mas estou completamente convencido de que ela é, sim, AMIGA DE FULANA que eu vi pela última vez provavelmente em casa de FULANA. Me parece uma garota muito interessante.

Mas já não estou mais ali, estou aqui, na Rio Branco, quase no McDonalds que anuncia o meu atalho para o trabalho, com os olhos pregados justamente em cabelos negros compridos e blue jeans estilo rasgadinho-de-fábrica. Não sei se me captou o olhar por ser parecida com AMIGA DE FULANA, ou se pelo mesmo motivo que sempre me captam o olhar mulheres ligeiramente mais baixas do que eu, de blue jeans justo mas nem tanto. Me rendi e abaixei o Rubem Fonseca.

Um visual simples, blusa preta de manga comprida justa nos punhos, e na cintura, calça jeans justa mas nem tanto, tênis All Star, bolsa nos ombros. Não vejo o rosto. É sempre um risco. Mas o espírito de uma pessoa está no seu jeito de andar, e uma mulher que sabe rebolar levemente já começa com muitos pontos de bônus. Vestida desse modo à essa hora incomum para o almoço me leva a julgar que é uma jovem universitária de classe média alta.

Jovens universitárias de classe média alta sempre se parecem ou com prostitutas de custo alto ou com executivas de custo baixo.

Segunda-feira, Outubro 17, 2005

Hora Extra

E, de uma vez só, isso foi semana passada, eu descobri que esta segunda-feira era um feriado maluco da indústria, que nós não iríamos trabalhar, e então que nós iríamos trabalhar, e que por ser feriado, ganharíamos o dia como extra.

Esta segunda-feira vai pagar minha viagem pra São Paulo!

Conto: Ânsia I

Este teto, este maldito teto, branco por todos os lados, a lâmpada apagada no meio, luz de cabeceira, não é tão largo, sombras onde as superfícies se encontram, odeio este teto, odeio este conforto onde me apóio sem que seu corpo pese sobre o meu; olho para cima, não tenho nada nas mãos, o frio ameaça o perímetro que me delimita, e um inferno se instala no âmago do meu ser em resposta, não olho para o lado porque ele não me procura, mãos vazias, eu quero, um tremor percorre o meu corpo, não sei o que fazer.

Ele está ao meu lado. Não sei o que fazer. Ele está ao meu lado? Não sinto ninguém, minhas mãos estão vazias, olho para cima, não me atrevo a me virar, por quê ele não me pede? Não me alcança? Está queimando, está queimando por dentro, idéias não mais se encadeiam, elas nascem, explodem, ou me implodem permitindo o frio do espaço vazio sobre o meu corpo onde seu corpo deveria estar a me pressionar contra a cama tocar o inferno que consome meus órgãos em uma sensação disforme de ser.

Minhas mãos tremem, meus dedos se abrem e se fecham, por quê quando se fecham não encontram nada? por quê não está aqui? eu desejo até o universo ser desejo e não me atrevo, está ao meu lado, ou está?, expando meu braço, minimamente, ou não?, encontro a dobra do lençol, não encontrei nada, não encontrei você, nada mais existe, só eu, você, e o abismo vazio entre nós, você ao meu lado não está comigo como está esta maldita lâmpada neste maldito teto branco que ocupa tudo que eu sei mais o conforto onde me apóio sem que seu corpo pese sobre o meu...

Quarta-feira, Outubro 05, 2005

Família, redux

-- Ei, que porra é essa de irmão mais novo?
-- Qual é o problema? Você é mais novo.
-- Bah... Eu queria ser o mais velho. ¬¬

Awwww. :-}

Segunda-feira, Outubro 03, 2005

Crônica: Memória

-- Esse mundo é muito estranho: eu brincava com ele na praia, aos cinco. Fazíamos fortes e Tácavamos bolas de areia uns nos outros. Foi uma boa memória.
-- Memórias rulez.

Argumenta-se que, se não completamente, boa parte da Idéia do Eu se forma como um coágulo pelas memórias que guardamos. E, como disse Muhammed Ali, recordar é viver.

Algumas vezes, modelo o progresso do desenvolvimento de uma pessoa como proporcional a quanto ela gosta de se lembrar e quanto ela consegue se lembrar. Acredito sinceramente que uma pessoa sem memória dos eventos que se foram não viveu; ou melhor, se viveu, isso é irrelevante.

Estávamos em mais uma tarde no escritório, coçando o saco; FULANA se levanta lá do outro lado, FULANO está zanzando pelo corredor.

-- Ih, lá vem ela.
-- É, hoje está foda.

Recosto na cadeira. Minha tela está preenchida por alguma porcaria inútil.

-- Ai, gente, o tempo está passando tão rápido, né?
-- Ah, eu não acho.
-- Não?
-- Não. Eu ando me divertindo bastante.
-- Mas o tempo não passa mais rápido quando você está se divertindo?
-- Pra mim, não. O tempo passa tanto mais devagar quanto eu tiver coisas pra me lembrar.

Atravessar uma semana inteira e chegar ao final para pensar O que eu fiz essa semana sem lembrar de nada relevante é como olhar para trás na reta do tempo e não conseguir preencher esse segmento com conteúdo. Digamos que você foi a essa festa no final de Setembro. Estamos agora no final de Outubro. Se você olha pra trás no tempo e só consegue ver a festa, é como se todo o mês de Outubro fosse comprimido entre o dia de hoje e aquele dia há tanto tempo.

Pensa na amnésia alcoólica.

O tempo que passou entre aquele e hoje... é como se não tivesse acontecido nada. Extrapolando essa experiência, eu alcanço um vislumbre do que é alcançar o fim da extensão natural da vida e pensar O que eu fiz da minha vida? Eu não fiz nada. E se sentir desesperado, com pressa, por que há pouco tempo e houve tão pouca vida.

Mas todo mundo que vive sessenta anos vive sessenta anos, não? Como pode ser que uns cheguem lá já de saco cheio, e outros desesperados por fazer um monte de coisas que ainda não fez? Esta sensação de vazio, eu atribuo à esse buraco na memória de que se é consciente.

Ademais, não creio que seja possível atingir qualquer grau reconhecível de sabedoria sem a memória do passado. Por que quanto mais tempo você tiver (e com sorte ou habilidade mais experiências distintas) maior será a probabilidade de que tenha experimentado qualquer um dos defeitos que os humanos têm, e uma das muitas variadas formas da verdade, ou do amor, ou de qualquer outra coisa. Quanto mais você se lembra, é capaz de se lembrar, e apreciar essa memória, mais tolerante você deve fatalmente ser, e mais capaz de interagir com o que é outro.

Com freqüência confundem a minha idade e me dão muito mais anos de vida do que de fato eu tenho. (Isso acontece fundamentalmente por causa do pouco cabelo, e incidentalmente por outros motivos.) Mas eu me sinto mesmo muito velho, porque é muito raro que passe uma semana sem muitas e muitas memórias. Estou a vinte e três anos nessa vida e ao longo do caminho tomei decisões muito estranhas, muito ingênuas aqui, amedrontadas ali, mas por algum motivo bizarro mesmo os cursos tortuosos que eu tenho que seguir sempre são do tipo que me permite ter muitas e boas memórias.

Pois já disse o Imperador Norton: a gente se fode, mas se diverte.

É claro que, em particular para uma pessoa de auto-crítica tão viciosa quanto a minha, guardar todas as memórias possíveis pode ser uma experiência extremamente desagradável. Minimizante do orgulho, trazedora de humildade, dissolvedora do pedantismo e da arrogância; extremamente desagradavel, em suma.

Não estou falando da sua primeira nota ruim, ou da descoberta de que o Papai Noel não existe. Estou falando de memórias absurdas e sombrias, como aquela de uns nove ou dez anos, em que um surto de angústia sem sentido se apossou do seu pequeno corpo e você empurrou sem qualquer pingo de motivo o seu melhor amigo de cara no chão de barro. Ou quando um guri qualquer estava perturbando a sua irmã e você frente a frente com ele abaixou a cabeça e virou de costas.

Ou quando você disse que era tão bom que se fosse participar do jogo ia deseqüilibrar, e lembrar da expressão no rosto do seu outro melhor amigo, a visão da repulsa. Quando você não soube ir embora na hora certa. Ou até coisas mais ridículas, como quando ficou encarando as pernas da sua amiga sem querer.

Ou coisas tristes, como quando estava comprometido e ouviu uma declaração impensável, ou conheceu alguém prestes a ir embora. Ou simplesmente a memória de pessoas de quem você gosta mas que por força das circunstâncias não têm mais por perto.

O universo por fim se apresenta como o lugar dos ajustes: se você não foi particularmente acometido por coisas abomináveis das quais pode sem dificuldades sentir muita raiva, eventualmetne percebe que o modo como as coisas vão acontecendo não é injusto, é perfeitamente justo, justo no sentido literal: ajustado.

Eu confesso que sou dado a mergulhar muito fundo nas minhas piores memórias e ficar por lá tempo demais, tempo suficiente pra acabar cético quanto ao valor de me relacionar com os outros. (Especialmente a quantidade desse valor para os outros.) Mas eu tenho boas memórias. Eu não tinha quatorze anos ainda quando fui chamado de espirituoso pela primeira vez.

Eu morei o início da minha infância nessa casa com um muro baixo que dava para a rua; eu gostava de deitar naquele muro estreito com a cabeça contra o muro do vizinha da esquina e ficar ali. Ou conversar com minha vizinha FULANA pelo muro dos fundos, e com as irmãs dela. Jogar queimado na rua ou na escola.

Eu me lembro de gostar da FULANA. E da FULANA também. E da FULANA, mesmo lembrando o jeito tosco com que ela me largou. (Depois do fato eu confesso que gostei bem menos.) E também da FULANA, que fez a mesma merda. E da FULANA. (Dessa vez o tosco fui eu.) E depois e depois.

Meu pensamento sempre retorna à mesma intuição. Como você pode continuar a vida depois de ter a visão de quem você é, e de como esse ser fatalmente resulta em justamente o que acontece? Pois o próprio fatalismo desaparece, junto com expressões como Tem Que, e novamente o universo surge como algo que simplesmente se ajusta e se multiplica mesmo que em diferenças sutis. Não há nada realmente fundamental em você se fuder ou se dar bem, isso tudo é realmente seu problema; as coisas são como as coisas são.

E, sinceramente, elas são muito legais, sendo coisas. Não sei exatamente como funciona isso, mas, mesmo lembrar do dia em que levei um chute no estômago de um sujeito que era meu amigo, mesmo a sensação de merda desse dia, é maneiro quando isso acontece. Justamente porque... foi uma coisa que aconteceu, é um acontecimento, é um modo de as coisas serem, e um modo que de fato foi, que exibe Eu em toda a sua glória (no caso, para um valor bem pequeno de glória).

Por que, como disse Bertrand Russel, 2 + 2 = 5, para valores extremamente grandes de 2.

Isso tudo me melhora? Acho que não. Eu continuo com todos os meus defeitos conhecidos, e mais alguns novos. Os que me conhecem desde a infância foram expostos a formas mais cruas dessas coisas; hoje em dia é tudo muito mais sofisticado. Creio que isso, sim, aconteceu: se eu sou arrogante, hoje a minha arrogância é uma senhora arrogância, tão grande que em um dado ponto eu enjoei de convencer os outros de como eu sou bom, e me concentro em fazer com que me obedeçam. Acabo preferindo que sejamos produtivos pra não me cansar com você.

Eu ainda acho que estou sempre certo, só acontece que eu digo isso com menos freqüência; e passo a maior parte das conversas estimulando os outros a falar, porque afinal se eu abrir a boca, a conversa vai acabar ali. Por isso eu prefiro que você fale e eu ouça.

Eu sou tão pedante que hoje sou capaz de gostar de todo mundo, já que, entenda, como seria possível que eu fosse seletivo? Se eu começar a selecionar gente do meu nível pra andar comigo, eu vou ficar sozinho. Então qualquer um serve, e, como qualquer um serve, todo mundo serve.

Misture com álcool e afaste-se para a sua segurança.

Você acha que eu estou sendo engraçadinho, porque ninguém se declara assim uma merda, né? Passa um tempo comigo e você vai ver. Sou eu, que se há de fazer? Eu não posso ser outra coisa além de Eu, e todas as memórias de Eu mostram como Eu sou, de fato, Eu. A única coisa que resta é, já que Eu sou Eu e não vou mesmo ser outra coisa, então ser o mais impressionante Eu que já existiu.

Afinal, já disse Caco, o Sapo: o Ser é o Ser.

[Citações absurdas em homenagem a G., o Sábio.]