O Presente e o Momento
Estava escrevendo essas coisas para mim mesmo; de repente percebi o quanto eu preferia guardar isso apenas para mim, e é justamente por isso que eu vou expor o mais abertamente possível. Este é longo. Se não está com paciência, eu sugiro deixar para depois.
Lembrar é sempre uma experiência interessante.
Surgem na imaginação cenas e estados tão familiares, mas por outro lado tão estranhos... Emergem coisas que certamente se passaram conosco, mas que estranho eu é esse, o eu de antes? Não se parece em absoluto conosco; não há outro eu além do eu de agora, porém, há muitos e tão diferentes eus de antes.
Muitas vezes sou esmagado por uma enxurrada de memórias que se poderiam dizer memórias dolorosas. Não faço a menor idéia do porquê, apesar de que me parece a resposta estar na ponta da língua. Também não faço a menor idéia do porquê de essas memórias serem tão dolorosas, e esse é um dos maiores mistérios da vida para mim.
Mas eu creio que há um mistério ainda mais interessante, que envolve justamente a questão que do início: quem é esse eu de antes que não sou eu? A lembrança do que já foi, e a experiência presente de que efetivamente se foi é terrível, e evoca demônios como Por que outra vez? Como outra vez?
É como quando se mente pela primeira vez, uma mentira poderosa; como se pode dizer, Confie em mim, com essa memória tão presente? Não me espanta que com o passar do tempo os mundos se encolham, as pessoas se diminuam em experiência, e não me espanta que a memória me doa tão mais quanto mais ele passe.
Houve quem me perguntasse Como pode você ser daquele outro jeito, se você é tão desse jeito, assim? Não pude responder outra coisa além de Não se engane; todos esses eus sou eu, inclusive aquele. Há quem selecione um dos eus para que eu seja, exclua os outros; selecione abertamente, secretamente; eu sou bem treinado para enxergar, de um modo ou de outro.
Mas não faz sentido para mim escolher, porque o presente é um só; por outro lado, é praticamente fatal que escolha, de um modo ou de outro, incessantemente, instante atrás de instante. Meus momentos mais recentes, há algum tempo, têm sido como ácido corroendo uma derme, ou como Eva berserker rasgando camada após camada de um A.T. Field estruturado (se você não entendeu, não pergunte); eu sinto que algo tão fundamental mudou que não me reconheço mais, não reconheço quem passou. Mas isso é ilusório, e certamente acabo por reconhecer, reestabelecer o continuum que é a minha história pessoal; ou talvez, a história pessoal de um algo de que eu sou um átomo no tempo.
O que me retorna ao objeto original da minha reflexão, o momento, e o presente. Acreditei, uma época, que eu estava vazando: como se eu estivesse escapando a mim mesmo, o tempo se esvaindo, e eu não sendo eu de tal modo que eu me escapava para fora, me perdia; agora, sinto que estou me escapando como se os limites do que sou eu estivessem largos. Dentro do que sou eu há tão muito mais; e por outro lado, tão muito menos definido. Isso tudo é muito abstrato e onírico, é claro; mas há um novo eu que eu ainda não conheço.
Não reconheço, em particular, quem está escrevendo agora. Mas não posso dizer que esse surgiu de uma hora para a outra. Me lembro de uma mesa de chopp com um irmão mais velho em que dizia, Vê que absurdo, aqui estou eu, pedindo ajuda, você imaginaria uma coisa dessas, e ele respondeu, Você é um ser humano como outro qualquer, apesar das aparências. Não reconheço aquele que estava pedindo ajuda na mesa (e ainda não sei o que significa pedir ajuda, como não sabia na hora; mas é como se diz por aí).
Se todas essas coisas são indefinidas, se o eu é tão descontínuo mesmo constatando-se alguma continuidade, então como podem se sustentar as idéias de ao-longo-do-tempo? Não é como planejar para o futuro, porque isso é calcular o que fazer no presente; é como viver, ou tentar viver, um agora que é o mesmo agora ao longo de muitos agoras; buscar a segurança de que esse agora é como o anterior, estamos como deveríamos; seguros? É isso, então, segurança? É tentador explicar, segurança, conforto, o mesmo mundo, conhecido. Mas não sei.
Este é o meu momento: as perguntas se tornaram nonsense. Toda uma dimensão de dor e de prazer se diluiu e não faz mais sentido, praticamente ao nível corporal. Até a minha próxima epifania, este é provavelmente o eu mais estável que se pode esperar: um eu sem respostas.



