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Segunda-feira, Agosto 14, 2006

Crianças

Nesse domingo senti uma vontade irresistível de descer ao play do prédio para treinar um pouco de kung fu longe de todas as vozes emanadas da televisão -- que por sinal estão criando um asco insuportável ao inglês falado em mim e na minha mãe.

Lá embaixo acabei por impressionar um grupo de meninas de menos de dez anos com aquele monte de movimentos esquisitos e por fim fiz uma penca de pequenos amigos.

As crianças são criaturas muito mais interessantes que os adultos: são simples, tão extremamente simples que chegam a ser desconcertantes.

Eu havia elegido este banco como minha base de operações, guardava ali meu copo d'água, minhas chaves e meu telefone celular enquanto chutava e socava e girava daquele jeito doido. Estava sentado ali descansando quando de repente chegam todas correndo -- estava jogando pique-bola -- e sobem no banco e rapidamente estou soterrado por crianças.

O banco é o "altos" da brincadeira, mas não cabia tanta criança naquele banco comigo sentado ali. Enquanto vinha a menina com a bola na mão eu ri e disse:

-- Assim não vai caber todo mundo aqui no altos, é melhor vocês correrem.

Realmente não cabia, e uma das meninas estava equilibrada em pé na pontinha do banco. Um guri gordinho, meu vizinho, olha pra mim e retruca:

-- Vai caber se você sair daí e for sentar lá no outro banco.

Cara de pau, hein?




Houve uma tarde em que eu fazia as vezes de babá da minha prima-sobrinha Mariana. Eu gosto muito da Mariana por ela ser tão energética; crianças energéticas tem uma relação muito saudável com suas próprias vontades; mas essa relação nem sempre é saudável para nós pobres outras-pessoas.

Depois de dançar e correr e jogar bola e fazer sabe-se lá mais o quê eu joguei a toalha. Claro que, sendo um sujeito sábio, eu joguei a toalha e disse:

-- Estou cansado, não quero mais brincar.

bem antes de realmente estar cansado e não querer mais brincar: é preciso recursos para negociar. Como de se esperar minha prima-sobrinha se revoltou e disse:

-- Não, não, mais um pouco, só mais um pouco, Pedrinho!

e eu tanto teimei que ela fez uma careta maligna e me deu um beliscão sinistro no braço. Enquanto torcia o meu braço dizendo "mais! mais!" eu olhei bem naqueles olhos e disse:

-- Se você acha que me machucar vai resolver o seu problema, é melhor pensar com mais calma.

Ela me deixou um roxo bonito no braço. Mas, quando percebeu que me beliscar não ia me fazer mudar de idéia, recolheu os braços com cara de pobrezinha, olhou pra baixo e disse.

-- Me desculpa, tá? Vamos brincar mais, por favor?

Naturalmente, nós brincamos mais um pouco.

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