[Ou,
Salão de Embarque do Aeroporto Internacional de Congonhas]
Estes pensamentos foram escritos para Sofia, mas em homenagem a Congonhas, com quem tenho uma relação de amor e ódio, os exponho ao escrutínio público.
Decidi mostrar pra galera, em suma.
Da última vez que estive aqui esperava um vôo atrasado da Varig pro Rio, lá do outro lado do saguão, provavelmente portão 25. Já era tarde e na época eu não tinha ainda meu CD
player portátil. Provavelmente estava tentando escrever alguma história; mas sem sucesso, porque não conseguia não prestar atenção à conversa generosa em decibéis entre esta jovem executiva e seu (assim suponho) jovem ex-marido.
-- ... mas é um absurdo, FULANO.
--
-- Mas é aniversário dela.
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-- É assim que ela vai se lembrar de você? Porque você está fazendo isso? É isso mesmo que você quer pra sua filha?
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-- Mas FULANO ... -- a voz mais trêmula -- É a sua filha, você está fazendo isso pra se vingar de mim? É a sua filha!
A princípio eu acreditei que estava rolando um drama e ela estivesse reclamando da falta de generosidade do sujeito. Mas logo descobri que o que ela queria não era dinheiro, mas a permissão que a justiça exige que um pai dê para que a mãe possa tirar a criança do país. A mulher queria mandar a menina para Orlando, um passeio pelos parques de diversão. A conversa continuou até que eu embarquei, e não mais pude ouví-la.
Eu entrei em pânico. Eu entro em pânico muito fácil, ao menos, eu vivendo no meu mundo particular dentro de mim mesmo. Corri de um lado para o outro desesperado. O que nos leva a esses jogos de poder? Estimava a genealogia daquela conversa: conhecia muito bem as micro disputas pelas micro satisfações nas micro situações com suas micro ansiedades e frustrações. É terrível como cada um desses quebra-molas pode destruir a suspensão dos nossos espíritos, tornar a direção das nossas vidas mais duras, e tornar para o carona a viagem uma experiência traumática.
Reduzir os problemas aos seus valores fundamentais, naquele momento, foi o que me deixou em pânico. Porque após me absorver um pouco no dilema do casal, de súbito eu me lembrei que havia uma criança envolvida. E essa criança não iria se divertir, porque adultos não sabem o que estão fazendo. Senti bastante raiva do sujeito, observando aquela disputa local; por mais que a mulher tivesse sido uma mala, o que a criança tem com isso? Mas é sempre muito fácil sentir raiva observando uma disputa local. Por fim, fiquei com pena da menina.
É vedadeiramente absurdo e cruel que uma sensação tão violenta de atração, que atravesse as formas mais intensas de prazer, de exploração mútua, degenere de modo tão insidiosamente difícil de perceber e de conter no completo desentendimento. O desentendimento é absurdo, é a morte de um relacionamento.
Um relacionamento qualquer. Relacionar-se é trocar. Suponho que as disputas de poder aconteçam porque queremos sempre mais, e para se tirar mais de uma troca, é preciso poder sobre com quem se troca. E quem sou eu para reclamar dessa situação? Eu a conheço bem, tendo participado dela, visto com meus próprios olhos o seu desenrolar, uma insidiosa forma de repulsa crescente no escuro a cada pequena derrota que o meu organismo não pôde transmutar criar um monstro intolerável, nascido de um peito partido tipo Alien, o Oitavo Passageiro.
Repara como o sujeito do filme sabe que está com um monstro dentro, e acompanha com os olhos o bicho arrebentando seu peito e pulando fora, sua última visão antes de morrer.
A intolerância é intolerável. Que o desejo não seja infinitamente regenerável é intolerável. É intolerável o esgotamento diante de uma necessidade não satisfeita.
O que tudo isso diz do amor? Absolutamente nada. O pobre amor fica esquecido como uma menina que quer se divertir é obscurecida pela sombra formada por seus adultos pais disputando sua morta-vida disputa de um relacionamento morto-vivo.
O que somos nós?
Há este jogo de tabuleiro. Nele, um quadrado de casinhas vazias, e peças com um lado branco e o outro preto. Os jogadores, em turnos, colocam peças no tabuleiro; quando acontece de entre a nova peça e uma outra peça deste jogador limitar um segmento de peças do oponente, essas peças do oponente se transformam em peças do jogador. O jogo prossegue nisto até que no fim contam-se as peças e quem tiver o maior número ganha.
Meu talento nesse jogo era entender que não é preciso vencer nos primeiros turnos; não é importante virar peças do oponente nas primeiras jogadas. O importante é posicionar-se estrategicamente bem ao longo do jogo para que no final você tenha as melhores jogadas, as jogadas chave, e tenha suas próprias peças consolidadas e defendidas.
Então, quando meu irmão mais novo entrou neste relacionamento aleatório, e entrou em pânico porque todas as variáveis eram loucas e nada parecia sob controle e tudo podia acontecer, eu vi seu jogo em um tabuleiro limpo, nenhum jogador ainda tendo feito qualquer jogada, e sabia exatamente o que dizer:
-- Cara, você precisa aprender a perder.
Irônico. Só em Reversi eu sabia perder. Quando precisei perder, ceder um espaço para ganhar um jogo, também entrei em pânico. Então, não apenas perdi o jogo, como perdi o Jogo; agora, não posso mais ganhar ou perder; não jogo mais Reversi. Não se pode jogar Reversi sozinho.
[Nota exclusiva para Sofia segue.]
O que há nessa porra de aeroporto que me aborrece tanto? Não é possível que eu esteja chateado porque estar
voltando de São Paulo para o Rio de Janeiro. Trouxe a quinta e a sexta de Beethoven comigo desta vez justamente para amaciar o meu espírito, e mesmo assim.