Havíamos sido descobertos mais uma vez. Fugir estava se tornando incômodo. Corríamos pelas ruas mais escuras de Botafogo tentando alcançar o outro lado da Voluntários da Pátria.
Para a nossa sorte estávamos, desta vez, com adoradores de lâminas na nossa cola. Esses animais não apreciam muito os projéteis; por isso confiei em nossa fuga e não acionei uma equipe de confusão. Isso ainda vai acabar com o meu casamento.
Paramos por um momento; saltamos uma grade de ferro e escalamos por entre muros de altura desigual até o telhado de uma casa de festas. Esperamos ali.
-- Por quê você nunca chama a porcaria da equipe de apoio? Por acaso odeia a vida? -- inquiriu minha digníssima.
-- shh -- esquivei-me.
Um triângulo surgiu então descendo lentamente a rua. Acho que nos superestimaram. Saltei do telhado por sobre o portão caindo com o cotovelo direito sobre a nuca do vértice mais próximo; caí com os joelhos dobrados, amortecendo até o chão; com o braço direito ainda em arco saquei a lâmina do corpo em queda e com um movimento curto cortei as bainhas dos outros dois.
Os adoradores de lâminas mantinham esta formação estúpida com a distância entre cada vértice perfeita para otimizar os movimentos de um oponente. Acho que o número de decímetros do lado do triângulo equilátero é sagrado, cabalístico, ou coisa que o valha.
Detestava esses estúpidos adoradores de lâminas por isso. Já sabia o que esperar: abaixariam para apanhar suas espadas caídas no chão. Sábios em suas maneiras, treinavam arduamente para abaixar e levantar rapidamente, minimizando este
raro momento de desvantagem. Enquanto perdiam seu estúpido tempo, desdobrei os joelhos e alinhei a lâmina no alto para acabar com aquelas vidas miseráveis com uma só curva rápida e precisa; quando senti seu perfume doce espalhado pelo ar amaciar meu ânimo; desci o braço com força em arco, mas levemente torcido, acertando suas cabeças com as costas e não com o fio.
-- Obrigada. -- disse.
-- Eles deveriam ser adoradores de você, e não dessas porcarias de lâminas.
Checou seus pulsos e as contusões. Quando se satisfez, voltamos pelo caminho por onde viemos; triângulos de busca são sempre dispostos no fundo de uma verredura como aquela.
Dobrando pela General Polidoro para alcançar a rua da Passagem reconhecemos um tema familiar sendo assobiado por uma figura sentada no balanço do pequeno parque que dá acesso à paralela mais para adiante. Ninguém se atreveria a assobiar
aquele tema; nos aproximamos.
-- Você quer matar sua mulher dos nervos?
Ela se senta no balanço ao lado e toma impulso olhando o infinito. O medo que me deixasse já atingiu o extremo, passou, e se transformou em uma agonia familiar e constante.
-- Claro que não. Se você está aqui, deve ter umas roupas.
Trocamos. Ela pôs uma peruca ridícula e um chapéu.
-- Vamos tomar uma cerveja ali na esquina.
Disfarçados, sentamos em um botequim agradavelmente vazio, e discutimos o trabalho de edição do último romance do Sábio. Ele é bom escritor mas nunca teve paciência para lidar com editores.
Eventualmente Sofia ligou; estava convenientemente "escondida" em uma loja de
flipper na Gávea.