[Vamos quebrar o clima de rancor por um instante. Sim, a culpa é toda sua.]
Querida Sofia,
você não existe ainda. Esta é a maior beleza em te escrever: você é uma possibilidade no meu futuro.
Uma possibilidade que eu desejo muito. Sofia, o meu interesse pela minha própria vida vêm diminuindo, com o passar do tempo. Já não me importo tanto quanto antes com o meu futuro, que parece traçado: o que eu vou estar fazendo, meu padrão de vida, tanto faz.
Mas, entre outras coisas, sobre as quais em breve te contarei, uma paixão que ainda me motiva é você, meu sonho, minha filha. Escolhi seu nome, Sofia, dos Gregos; mais sobre isso depois.
Me perdoe se você que está lendo este diário é meu filho; não se chateie por ele ser endereçado a uma menina chamada Sofia; fique feliz por que seu pai, aos vinte e três anos de idade, não está fantasiando com um homem, e que com sabe-se lá que idade não perdeu a razão e pôs o nome Sofia em um menino. Apesar de que a mãe dos meus filhos certamente me amarraria com uma corda antes de me permitir fazer tal coisa; ou assim espero.
Este diário é sobre esperança; e minha primeira esperança é que efetivamente o termine. Por que eu sou egocêntrico, egoísta, imodesto, imoral, inconseqüente, irresponsável, indisciplinado, mal educado, mal humorado, mal barbeado, e generalizadamente maligno. Com um pouco de sorte, este meu projeto será cumprido até o fim. Por que ele é muito importante para mim.
Veja, Sofia, que eu ainda não conheci sua mãe (ou assim suponho) e me é fácil encontrar tristeza no mundo. E há tanto para se encontrar. Bastante em mim, também.
Escolhi para você um nome, Sofia, como ícone do presente que realmente estou trabalhando para te entregar quando você estiver comigo. Construir este presente para você é agora uma das metas da minha vida. Um Nome que escolhi para mim mesmo há alguns anos se mostrou perfeitamente apropriado para este fim.
Todo pai anseia por que seus não cometam certas coisas que eles chamam de Erros e normalmente seus filhos chamam por outros nomes, normalmente mais agradáveis. Pais anseiam por Proteger seus filhos, atitude que seus filhos descrevem por outros nomes, normalmente menos agradáveis. Pais, em sua ânsia, se desesperam por fazer a coisa Certa, mas curiosamente não perguntam aos seus filhos que coisa é essa, por suporem que a resposta para esta retórica questão é óbvia.
Não é.
O mundo é o que é: ele não vai gostar ou desgotar de você; vai te perguntar O que você me oferece? e vai tomar esta oferta e retornar o que for barganhado friamente. O mundo não é mau por isso. Ninguém tem a obrigação de gostar de você. Isso te fará sofrer e perguntar Por quê e chorar Eu quero tanto!
O que eu desejo para você, minha filha, é que mesmo então saiba olhar para o Outro com compreensão; mesmo que a alternativa de sua escolha seja golpeá-lo com toda a força, comprenda-o, compreenda como ele é uma forma de Certo; de modo que você seja capaz de tomar suas decisões com firmeza, e ser verdadeiramente feliz com a vida que se lhe apresentar.
Incidentalmente, eu desejo que a juventude brasileira de sua época ainda tenha o português tal que este diário seja agradável de se ler, ou ao menos inteligível; desejo que ainda hajam vogais em abundância, e pontuação.
Você terá a oportunidade de me conhecer melhor na continução destas linhas. Por hora, estou feliz por ter já tido esse tanto para te dizer.
Eu te amo.
[O resto vocês podem ler daqui a algumas dezenas de anos, a critério da então proprietária.]