Estava sentado em um banco de praça, perto da Câmara Municipal, pitando um Captain Black antes de entrar no
shopping Estação.
O chafariz, o som da água corrente, era tranqüilizador.
O velhinho senta-se ao meu lado. Velhinhos de praça, quanto pior a cara de tristeza, maior a minha cara de enfado.
Há esse velhinho desesperado na esquina da Rio Branco com a Carioca; suponho que ali já seja Carioca; enfim, há ali o Banco do Brasil e do outro lado da rua o Avenida Central, vocês sabem. Então, esse velhinho, ele está constantemente desesperado. Quando você passa por ali pela primeira vez sente um aperto no coração (isto, é se você não for
eu). Por que ele está desesperado. Genuinamente.
-- Me ajuda por favor, eu tô com fome, me ajuda, por favor, eu estou desesperado...
Ele mexe as mãos unidas para cima e para baixo e se move rápido, corcundo, com os olhos apertados, uma expressão de quem está prestes a explodir em lágrimas.
É realmente tocante. Até o segundo dia. No segundo dia, o velhinho está lá, desesperado. Você vê aquilo e surge o Absurdo. Uma pessoa desesperada por um dia inteiro desmaiaria de exaustão. No terceiro dia que você passa por ali, no quarto, você já está com raiva do velhinho. Por que o que ele está fazendo é estuprar o seu coração.
Mas esse velhinho da praça da Câmara Municipal de Curitiba não estava mais que dando petelecos no meu coração. Eu, convenhamos, sou
eu. O meu maço de Captain Black está cheio e mesmo assim pito meu cigarro devagar.
Estava com fones de ouvido apreciando o Amnesiac do Radiohead, o velhinho se remexeu, olhou para o lado, para o meu lado, e reparei em umas sacolinhas de cordões. Fez menção que ia falar alguma coisa mas pareceu horrivelmente desencorajado pelo meu completo desinteresse.
Naturalmente, quando sentei naquele banco havia avaliado todos os perigos em potencial, além de escolher o banco que me desse o melhor ângulo de visão para esta morena, parte integrante da bela paisagem, que eventualmente se revelou uma
hippie e conseguiu me vender bijuterias feitas de arame. Ela conseguiria me vender qualquer coisa, e nem tanto por ser morena, mas por ser capaz de uma abordagem direta e simpática.
O velhinho, porém, não tinha nenhuma dessas qualidades. Quando conseguiu abrir a boca timidamente, percebi que suas sacolinhas continham cordões de santos.
-- Boa tarde, er... Você é católico?
Pensei por um instante sobre essa questão. Esbocei minimamente uma reação, o que fez o tal um pouco mais nervoso. Não me preocupei em remover meus fones de ouvido, mas antes que ele tentasse a pergunta novamente, já havia chegado a uma conclusão:
-- Não.
A concha se fechou, como se reagindo a uma forte e poeirenta corrente no mar. Descruzei as pernas para cruzá-las novamente do jeito inverso; mais uma baforada gostosa. Baunilha.
Pensei em como tinha sido escroto... A Nestlé não deveria ter descontinuado o recheado de baunilha, que era muito superior ao de chocolate. Isso foi realmente escroto. E não falemos mais sobre esse nome idiota, Bono.
Infelizmente me dei conta após alguns minutos que o vendedor de cordões de santos católicos ainda estava ali, remexendo nos seus santinhos, cabisbaixo. Seu constrangimento vazava pelos poros do seu corpo astral, tentando comungar com o meu, mas encontrando apenas a muralha de gelo digna de um Sith.
-- Vamos esquecer isso, está bem? Vamos esquecer isso.
Pôs os santinhos de lado. Olhava para baixo. Senti muita pena. Esquecer? Esquecer o quê? Imaginei o pobre religioso desesperado batendo na porta do Marquês de Sado à procura de esmola.
Fiquei com raiva, também. Que existência patética. Pensei que estava sendo intolerante demais com aquela triste condição, mas então me lembrei da
hippie que havia me vendido cacarecos de alumínio. Mas você comprou os cacarecos porque ela era morena. Não é verdade. Então porque não compra do velho? Porque são santinhos católicos. Se uma moreninha viesse te vender santinhos católicos você comprava, seu lixo. Pois foda-se você; se uma moreninha católica viesse sentar cabisbaixa do meu lado, eu sentiria o mesmo nojo. Não me venha com esse argumento sexual.
Em meio ao meu grande dilema ético pessoal, surge um murmúrio. Não sei realmente se foi um murmúrio ou uma voz alta apenas o suficiente para se sobrepor aos meus fones.
-- Sabe, é que eu sou muito pobre... Moro na rua há dez anos... Olhe, estou dizendo a verdade.
Entendi que havia sido desafiado em minha falta de solidariedade. Cruzei as mãos por trás da cabeça, me fiz totalmente confortável para apreciar o
show de horrores que era a perna do sujeito. Pensei Estamos em Curitiba, meu amigo, procure um posto de saúde.
-- Você não pode...
Atropelei-o.
-- Companheiro, estou percebendo que você tem um comércio aí; tenho certeza que há muitos católicos na cidade que comprarão o seu produto.
-- Mas...
-- Eu, infelizmente, não sou católico, então não estou interessado.
Meu cigarro havia acabado e eu estava mesmo a fim de ir até o
shopping; mas não me levantaria dali enquanto não cumprisse minha missão. Sentado, apoiando a cabeça nas mãos, olhando para o infinito, pensando em nada, completamente desinteressado, observei os ombros tensos, as mãos trêmulas se esfregando, os olhos quase em súplica se não estivessem tão voltados para baixo, eu sou a única fonte de renda restante no Universo, um processo penoso até a apoteose de toda aquela ansiedade:
-- Você não pode me ajudar?
Pensei por um instante. Afundei os restos mortais do meu cigarro em um potinho de iogurte estrategicamente largado no banco com uma pilha de lixo dentro. Esta presença tão oportuna, tão sincrônica, me trouxe à resposta:
-- Não.
O velhinho se arrastou para longe. Só me levantei quando terminei de apreciar o pôr do Sol. O céu em Curitiba é lindo.