Crônica: Portão de Embarque Número Três
Não faço idéia do que está acontecendo, não tenho problem algum com aviões. A mocinha morena ao meu lado está me chamando a atenção com os olhos, mas estou em outra. Não estou no portão de embarque errado, como estava da última vez, voltando de São Paulo. Minhas mãos estão tremendo.
Suponho que um número de expectativas está liberando toneladas de adrenalina por toda parte. Vou rever pessoas com quem não me encontro há anos. Vou para terras desconhecidas sofrer um frio extraordinário para quem vive em terras tropicais.
Viajar é libertador, não só porque você tem todo o tempo do dia para descansar, mas porque você tem todo o tempo do dia para mergulhar em paisagens e costumes alienígenas ao seu estilo de vida. Mapear uma cidade nova, observar outros tipos de fisionomias, ouvir outro tipo de sotaque, conhecer outras formas de beleza, enfim, estar fora do seu normal.
Meu vôo vai atrasar pelo menos meia-hora, mas estou bem equipado. Esses jornais não são páreo para o meu livrão grosso. Comprei um toca-CD portátil em antecipação aos longos períodos de solidão durante a semana.
Solidão é uma palavra que normalmente evoca uma sensação ruim, "não quero isso", mas não é o caso. Sou um turista urbano: gosto de tomar uma condução ao centro comercial da cidade e andar entre os prédios de escritórios e as lojas; ver as pessoas trivialmente nos pontos de ônibus ou na fila dos bancos.
Pensar essas coisas me faz relaxar. Não me lembro bem de Curitiba, estive lá há dez anos. Há lá quem não me vê há pelo menos quatro.
Talvez haja sim uma ansiedade, nascida da expectativa de viver uma viagem glamourosa, de ter os momentos fantásticos que suponho irão esgotar a minha própria saturação com a banalidade, o tédios dos eternos mesmos problemas. Porém, como era de se esperar, certos problemas viajam comigo, e vão onde eu vou; me aborrecendo até em um salão de embarque de aeroporto, enquanto espero meu transporte terminar de taxear.
