Estivemos lá, nós, juntos, lado a lado, enfim, zanzando de um lado para o outro; na verdade, não de um lado para o outro, mas em círculos, porque o evento se organizava ao redor de uma quadra de futebol de salão, onde estava acontecendo o campeonato de jogos de cartas; do lado de cá estandes de
merchandise típico,
manga, livros, bonecos,
posters, enfim.
Comprei presentes para mim mesmo, minha irmã, e uma prima.
-- Esse lugar é absurdo.
-- Pois é. Eles são assim mesmo, por lá.
-- Eu sou um homem casado, cara. Eu amo a minha mulher.
-- É, companheiro...
Sailor Jupiter não estava tão legal assim, mas T. achou uma graça. Acho que tirou uma foto com ela.
Eventualmente foi zanzar com a sua colega do King of Fighters e ficamos sentados em um canto perto do banheiro feminino e do
karaoke.
Eu gosto de
cosplay; é legal ver o esmero com que os fãs fazem as roupas dos seus personagens favoritos, ou ao menos quanto dinheiro se propuserem a gastar ali; ou o dinheiro de seus pais, enfim. Alguém gastou alguma coisa.
Por isso mesmo dá vontade de rir de alguns que aparecem com uma peruca e um cordão, ou, sei lá, um anel, e de repende você percebe que aquilo é uma tentativa de alusão a um personagem X ou Y.
-- O que diabo é aquela ali de peruca loura?
-- Cara, sei lá...
-- Ela está com um treco na cabeça, o que é aquilo...
-- Putz, brother, aquilo é uma tentativa de Chi, de Chobits; aquele negócio ali é...
Enfim. Não interessa.
-- Não sei se eu acho esse negócio saudável.
-- O quê?
-- Olha aquela saia ali.
-- É; é como eu disse, é assim mesmo que se vestem, por lá.
-- É muito erótico.
-- Bom, talvez não seja assim tão fetichista por lá, mas as roupas de colegiais são sinistras...
Observamos por alguns minutos. É realmente um negócio muito estranho; uma coletividade adolescente com saias muito curtas, e camisas curtas e/ou justas, cabelos coloridos; as que fazem
cosplay acabam por fazer personagens de desenhos populares (para não dizer populistas) que invariavelmente usam muito pouca roupa.
É conhecida a tara fetichista dos japoneses; há toda uma indústria pornográfica lá atrelada ao
manga e ao
anime. O público
otaku, uma espécie de A Vingança dos Nerds levada ao extremo da incapacidade social, consome as ninfetinhas super-poderosas da animação vorazmente.
Adolescentes já não fazem muito mais que isso, basicamente; estimulados então, é um show de horrores. Mas quem sou eu para reclamar; estava lá apreciando o show, ao custo efetivo de dois maços de Carlton vermelho.
-- Não são muito diferentes de nós na época mor do RPG.
-- Nossa, que coisa horrível, não podiam expulsar essa porcaria pra longe do microfone?
-- Observa só, ficam todos querendo se satisfazer em sua glória de fã; os mais novos vêm fantasiados de Evangelion ou outra porcaria popular, e os um nivelzinho acima dizem entre si, Haha, olha ali, Shinji, é um novato mesmo.
-- E sempre tem os outros grupinhos, tipo aqueles ali, ó; aqueles com certeza são jogadores de Vampiro.
Vemos um borrão preto andando pelas laterais em direção à lanchonete, e com dificuldade percebemos que são, na verdade, indivíduos todos da mesma cor, muito próximos uns dos outros.
Ficamos mais um tempo em silêncio, provavelmente alimentando pensamentos eróticos pelas garotas e pensamentos assassinos pelos garotos, até perceber que aquilo é errado. Errados, digo, os pensamentos eróticos, porque apesar das aparências, a faixa etária ali é 14 para 16; os pensamentos assassinos até que eram bons.
Um cardume sai do banheiro feminino e se aloja ali ao nosso lado; o zumzumzum me encomoda, M., aqui está
crowded, vamos dar uma volta. Beleza.
Andamos por aqui e ali; provavelmente então que comprei os presentes. Eventualmente encontramos T. e King of Fighters tirandos fotos fazendo poses.
-- Cara, você já parou para pensar que nenhuma dessas pessoas têm a idade de um bom uísque?
-- Eu não beberia nenhum deles.
Curiosamente, nenhum deles bebe; eventualmente saímos de lá para encher a cara, e tivemos nosso convite recusado. Eles não bebem cerveja, me diz minha amiga. Só gostam de vinho. Não sei que gosto doido é esse de adolescentes, de não beberem cerveja, mas vinho; a última cena dessas de que me lembro envolvia um garrafão de vinho muito ruim e uma penca deles amontoados com copos de plástico na mão. Na época, eu não era muito mais velho.
Ou talvez meu corpo não fosse muito mais velho. Mas não entremos nessas considerações.
É estranho participar de um evento desses; dependendo da sua aproximação, sente um vazio, ou um preenchimento, ambos totalmente ridículos. Parte da diversão está em, meramente, estar.
-- Não acharam o meu coleguinha
kawaii?
-- Putz.
-- Esses amigos automáticos são uma graça.
-- É, e sempre que você os encontra, um ano depois, eles sempre dizem, E aí, cara, estou organizando um evento...
-- Ou então, Estou começando um zine alternativo...
-- Pois é, tipo o lance de zine do Garage que o G. arrumou aí. Eu nunca que mando pra ele o texto que eu falei.
-- É, ele me falou sobre isso. Eu ando escrevendo ultimamente.
-- É mesmo?
-- É. Um dia eu estava entediado em casa, abri um negócio alcoólico, e rapidinho estava rindo à toa digitando no computador. É a minha terapia.
-- Ih, cara, eu mesmo comecei a escrever assim...
Mas nós já estamos cansados desse assunto, hm? O porta-retrato da Utena que comprei está uma graça na minha estante, mas me pergunto de quem será a foto que ele vai portar.
Como eu dia dizendo, é difícil se divertir nesses eventos da maneira mágica dos adolescentes, quando esses conseguem de fato o feito; o entusiasmo de estar ali, n'O Evento, sendo O Fã. Falar com orgulho, Eu vou no Anime Rio, sentir aquele significado todo, Eu Faço Parte.
A realidade cruel do corpo atrapalha o momento mágico; o tempo passa, e você está ali; você senta, o tempo passa; percebe secretamente que parte da diversão dos que estão se divertindo está realmente nas outras pessoas que estão por perto; observa as patotinhas, vê jurados de concursos onde amigos estão participando, o grupinho de Vampiro zanzando ou já sentados em algum canto, pra reclamar da vida;
cosplayers insanos com pelo menos um quilo de plástico sobre a lata fazendo poses e tirando fotos.
Não durou muito mais; eu e M. partimos para o botequim mais próximo, e o resto da noite foi a arrogância de dois filósofos largados com a cerveja debatendo a falta de propósito e o desejo do significado por parte de outras pessoas.
-- Cara, olha aquilo. Olha ela, cara.
-- Nossa!
-- É muito
kawaii, M. Eu quero uma dessas pra mim.
-- A lei não permite, sinto muito.