[Editado em 2005-05-30 porque não sei que merda eu tinha na cabeça pra digitar com tantos erros.]
Que a Deusa me perdoe, mas hoje estou bebendo chopp em um
shopping center.
Andei por Botafogo quase uma hora. Teria ido ao Leblon, mas certas expectativas me mantirevam por perto. Procurei onde me sentar -- por algum motivo a mesa número 6 não me pareceu tão atraente. Creio que o vinho tinto que não tomei na sexta-feira está me levando ao álcool.
Fui à Lidador deste
shopping mas estavam com falta de Miolo, e a única garrafa da loja custava mais que eu posso pagar. Em
uma garrafa de vinho.
Procurava um lugar aberto, de preferência com mesas próximas a uma rua tranqüila; numa varanda, quem sabe, com uma gradezinha de madeira; uma meia-luz, toalha de pano, uma boa cerveja; silencioso, talvez uma suave música ambiente.
Mas estou com minha câmera fotográfica na mochila, então entrei no maldito
shopping para comprar filme. Agora estou sentado neste lugar barulhento sem que um puto de um garçom venha me oferecer o Chopp da Brahma Gelado! a quase três dinheiros a caneca.
Pelo menos gasto menos dinheiro. Sobra para uma garrafa de tinto na minha loja favorita.
Passei a semana esperando a sexta-feira chegar.
-- Então, é isso que eu estou dizendo.
-- Cara, totalmente. É isso aí.
-- Porra, a gente tem que sair mais.
-- É cara. Vamos combinar.
-- Lembra quando nós vimos
Moulin Rouge e tomamos vinho tinto, L.?
-- Aham.
-- Vamos fazer denovo! A gente compra umas garrafas, e eu alugo os filmes. Podemos ver
Encontros e Desencontros e
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança.
-- Maneiro cara. Vamos combinar.
Vamos combinar é mortal. Vimos, eu, K. e um amigo das antigas desenhos animados, comemos pizza e tomamos guaraná.
Ontem decidi sair pela noite e ver a animação da cidade. Dormi.
Puta merda, o sujeito está com uma camisa vermelha com o símbolo da União Soviética estampado. Até
eles já desistiram. Esse é persistente.
Mas é fácil persistir em uma fantasia.
Estávamos nos enfiando de vinho tinto. Posso me foder de todo jeito, mas não de grana. O mercado de trabalho me ama. É das poucas coisas que me amam.
-- Estou deprimido.
-- Por quê?
-- Por que nós somos a maldita Operação Mindfuck, Gil, e há anos que a única
mind que vem sendo
fucked é a nossa própria.
-- Jura. Não tinha notado.
-- Caralho, e os garçons continuam me ignorando! Mas hoje foi a maior comédia, estava no
Escada Shopping, tinha ido comprar um filme...
--- Filme? Que filme? Vamos ver.
-- ...pra minha câmera fotográfica...
-- Ahn.
Porra!
-- Cara, você leu um trecho do Umberto Eco que eu citei há uns meses atrás?
-- Não lembro.
-- Eu queria que a Operação fosse mais ativa, só isso.
Mato a minha taça, vou buscar outra garrafa na geladeira.
-- Cara, você está prestes a começar um monólogo.
-- Bah.
-- Eu sei o que você quer dizer, você quer causar mais impacto, projetos provocantes, etc. Vamos libertar a mente.
-- É.
-- Dos outros.
Er.
-- ...é.
-- Ah, vai tomar no cu.
Enche a taça. Eu começo a falar merda mais cedo porque não consigo beber devagar.
Comecei a divagar.
-- Viu a foto que eu tirei da Placa da Presidente Vargas?
-- Vi, cara. Você manjou o lance do 2010?
-- Que lance?
-- No 2010, os caras descobrem que as placas convergem para Júpiter, um negócio assim.
-- Mas isso não tem nada a ver com o Toynbee.
-- Sei lá.
Hum...
-- Escuta, Pat, você fica enchendo o meu saco com esse papo de Mindfuck mas nem termina a merda de conto para o zine.
-- Ih, foi mal, está ali embaixo das revistas.
-- É, finalmente, o tal conto do Lorenzo?
-- É.
-- Eu gosto desse.
-- Eu gostei da idéia, mas achei que ficou uma merda.
Depois de meia hora percebi que estava na área da lojinha de salgados. Levantei sem cerimônia e me mudei para uma dessas mesas altas esquisitas com o símbolo da Brahma.
O chopp estava longe de gelado.
Este shopping é diferente da Prefácio. Aqui os casais não são
cult ou briguentos ou em formação. São casais. Exalam casalzice. Uma coisa pacífica e tediosa.
Mas como era a
catch phrase daquele filme? Todos querem ser encontrados.
-- Mariana não vêm hoje.
-- Ela sabe que a gente tem vinho?
-- Sabe. Tem um carinha aí.
-- Graças à Deusa.
-- É.
Nosso dilema a três nunca fez sentido mesmo.
-- Como tá indo o teu Plano, cara?
-- Olha, me pergunta isso outra hora. Basta dizer que sem esse vinho tinto eu teria me jogado pela janela.
-- Mas do terceiro andar, cara? Ia doer.
-- É.
Minha sala era a exibição alegórica do esparramar. Estávamos eu, Gil, meus dois cachorros de pelúcia, as garrafas cheias, as vazias, e esses negócios tipo travesseiros, todos esparramados pelo chão.
Meu lar é um templo à Eris.
-- Você não devia estar tão chateado. Nós estamos publicando. Como você disse. Publicando e foda-se.
-- Eu sei... Mas -- Estou meio sem valor.
-- Como é isso?
-- É como se -- Qual é o valor no que a gente faz? Quero dizer, é mais fácil achar valor no trampo que nas crônicas, cara. O trampo paga o vinho.
-- Olha...
Sinto pena do meu amigo. Ele escolhe as palavras com cuidado porque sabe o que significa a pedra de gelo que vos fala insinuar que está triste.
É curioso o mecanismo animal. Dediquei minha vida a desvendar sua linguagem. Perceber meu amigo se sentindo no limiar de me dizer algo ruim me faz bem por ter atenção e preocupação.
É essa a natureza do afeto, a felicidade do desconforto do outro por nos querer bem? Rejeito essa realidade. Não aceito esse mecanismo. Essa é a minha Operação Mindfuck.
-- Cara, olha, não se preocupa. Eu sei que estou te deixando sem jeito. Pode me dizer o que está pensando. Solta essa parada.
Os músculos se soltam.
Nós somos Mestres em Mindfuck. Não Grão-Mestres, mas Mestres. Mesmo assim essa pessoa se contraiu para evitar meu ferimento.
Deveríamos nós ligar totalmente o foda-se, como é nosso discurso? Ou o sinal derradeiro da palhaçada que é essa atitude é a preocupação inevitável? Há um caminho do meio.
-- Não sei mais o que te dizer, mermão. Você sempre foi o cara que percebe os mecanismos. Mas esse seu estado atual me assusta.
Onde está Mariana? Ela é a salvadora de todos nós. Ela dissolve nossos pecados em si mesma. Nos odiamos por isso.
Longo silêncio.
-- ...comprei aquele vestido pra ela.
-- Quem bom, cara. Ela vai gostar.
Estou a ponto de chorar. Minha existência é absurda. Meu sucesso é absurdo. Meu fracasso é absurdo. Sou uma máquina de trabalhar, meu conforto está garantido; mas sou uma máquina de pensar e minha mente esta acelerando em direção ao inferno. Estou vivo. Por quê mesmo?
Como foi que o Gil disse? Tenho que ser mais cara-de-pau. E Machado de Assis? As melhores mulheres estão reservadas para os homens mais ousados.
Mulheres? Meu braço de escritor perde a força e a caneta cai quando o fluxo nervoso percebe o que está correndo por ali. Essa é a quetão final? É sobre isso que se resume?
Não é.
-- Ainda bem que você veio. Se não tivesse vindo, eu teria dormido doze horas até o dia seguinte.
-- Não sei como você pode dormir tanto às vezes, e não dormir nada às vezes.
-- Cuidado com essa porra!
A garrafa escorrega e espirra vinho pra todo lado.
Puta que pariu, meus travesseiros!
O shopping está fechando. Pago, saio. Estou com minha mochila e minha solidão caminhando em direção à locadora (naturalmente, saí para devolver filmes) quando o telefone toca.
-- Qual é.
-- Vinho.
-- Tô indo.
Não sou escritor, logo vocês não são leitores.
Essa é a minha terapia.
Boa sorte pra vocês.