Nos Tempos de Além, dormi abraçado à foto dela. Havíamos dançado juntos na Festa, agora corpo contra corpo, agora braço com braço, mãos segurando mãos, ela sempre sorrindo, eu sempre ao lado dela... Na medida do possível, de acordo com a Dança.
Só duas pessoas neste munndo souberam que dormi abraçado àquela foto; duas mulheres, como não podia deixar de ser. Elas estão por toda parte; minha família, minhas amigas, colegas, conhecidas, transeuntes, e todas as outras, vivendo na minha fantasia.
Naqueles tempos sonhava com Ela, uma que era por todas as outras; ela me contava muitas histórias e eu a ouvia a noite toda. Aprendi a sonhar um resto de sonho pela manhã antes de definitivamente me reduzir à vigília, com todos aqueles corpos se locomovendo e ocupando o espaço.
Dormia agarrado a um travesseiro, braços e pernas trancados naquele macio, sorretado sob cobertas que me contavam a história de um peso sobre o meu corpo... Logo estava sob um céu claro, entre árvores e colinas, esperando que viesse me contar mais coisas sobre o que É, na minha fantasia; e escrevíamos toda noite uma Fantasia nova para nós.
Mas os corpos lentamente tomaram o espaço, tomaram o meu espaço, e o ocuparam, e se locomoveram nele. Com todas as suas formas e nomes, se fizeram importantes, imprescindíveis, mas não sabia o que fazer com eles. Nenhuma história para me contar além das mesmas histórias, desagradáveis; nenhuma história para escrever, além de histórias desagradáveis, sobre mim, sobre outros, às vezes sobre eles mesmos. Corpos tensos; não quis meu corpo, e quase o joguei fora.
Gostava de evitar os corpos; andar por entre os edifícios, sobre os edifícios até, sentado ou deitado no mais alto possível, próximo da lua, buscando a minha Fantasia dia e noite, na medida do possível, de acordo com as regras do Dia. Mas os corpos me atraíram, atraíram meu corpo, e não pude me separar do meu corpo; mas não sabia o que fazer com ele.
Fantasiava com eles, os trazendo para entre as árvores e colinas, sob um céu claro, mas nessa fantasia Ela não estava; estavam outros, estranhos, restritos, sem histórias para contar.
O grito que tremia meu universo não era suficiente para preencher todo o espaço da Fantasia e alcançar meu corpo; este se mantinha impassível, espirituoso até, se locomovendo e ocupando o espaço, se tornando tenso. Viajei com ele buscando desesperadamente encontrar, mas o quê, já me escapava. Encontrei nela o signo de uma ausência, e na Festa, uma Fantasia em que ficávamos juntos pelas regras da Dança, e não mais. A foto que tirei dela; nela me agarrei, mergulhando o mais fundo no sonho; não encontrei ninguém.
Depois deste dia houveram muitas outras, muitas festas e muitas danças; mas cada vez menos Fantasia, e mais fantasias tensas; e dormir se tornou cansativo.
Desde então, houveram muitas. Não exageradamente muitas, nem escassamente muitas; inexpressivamente muitas. Uma vida na dança dos corpos, dos sussurros, das malícias, atrações e repulsões, estratégias e inocências, circulando ao redor de um centro inatingível, invisível, de fato.
Nos inebriamos uns nos corpos dos outros, corpos contra corpos, quadris contra quadris, quadris contra faces; contra o corpo todo, o rosto, as mãos, outro corpo todo; procurando, encontrando, esquecendo, e se perguntando Por quê.
Um corpo em meio a outros corpos; este teve corpos para si, contra os quais dormiu abraçado, sem travesseiro nem cobertas; e não sonhou mais que o sonho dos corpos nas camas vazias.
Locomovendo-se errante pelo espaço, este corpo recebeu impressões mil, que o impressionaram a se mover mais e se impressionar mais, e ao tempo, que passe. E passou.
Mas o passar dos corpos pelo espaço deixava algo, um pó de pirlimpimpim; um pó que se acumulou e coçou e forçou um espirro forte, um coçar dos olhos, uma nova visão, borrada... O que há nessas coisas que elas deixam conosco para trás? O que há ali dentro?
Ia dançar, se mover, apenas, e tão somente; a visão pura do balanço dos corpos como a sensação de liberdade total; apenas corpos, não mais que corpos, o escape de... De?
Vê; lá, onde minha cama está, há um pote, guardado em um canto de uma cômoda; nesse pote guardo o pó em forma de textos que ficam para trás com o passar dos corpos. Pedaços de mulheres que o tempo levou pelos motivos que só o tempo tem.
Hoje encontrei um pedaço perdido em um caderno cheio de tensão, produto final do tempo passando sobre mim; um pedaço esquecido como todos os outros.
Pois não tiro mais fotos; o tempo de mim não tem registro; o corpo só se move e mais nada. Secretamente mantive seguros esses pedaços de mim mesmo, seguros da violência que se abatia sobre páginas de diário, registros da ansiedade do corpo por escrever histórias que ele não conhece mais, registros da ansiedade do corpo, e do inebriar de uns corpos nos outros, e dos sonhos das camas vazias, denovo, e denovo, e denovo.
Abrir esse pequeno Cofre e admirar seus tesouros trás à minha mente a lembrança de um sorriso ao qual tentei me agarrar, em vão, há tanto tempo; o signo de uma presença além do corpo que a envolve, algo que o contato, mãos sobre mãos, braços com braços, trás à mente, preenche o coração.
Uma fagulha de sentido ilumina este espaço de corpos com cores e os diferencia uns dos outros; há algo ali além de uma sofreguidão ansiosa, de um suor; e finalmente o nome daquela que me acompanhou e nunca me abandonou retorna, sua visão, esplêndida, e o som das suas palavras relembrando histórias cheias de significado; minha Fantasia está novamente comigo, para que, da minha fantasia, eu a encontre em um corpo que possa estar contra o meu, como em uma história que ouvi em tempos dos quais não me lembrava mais.