Deitei no chão de camisa e cueca. Ela estava sentada na cama lendo o jornal. Não sabíamos o que ver no cinema, e eu nem havia tomado banho ainda.
-- Agora você vai poder ver todos os meus erros e corrigir meus abdominais.
-- Ahn?
Suspiro.
-- Eu disse que vou fazer abdominais.
Oomph. Um.
Oomph. Dois.
Oomph. Três.
Oomph. Quatro...
-- Ó, vou te ensinar. Largou o jornal na cama e virou pra mim.
-- Você tem que respirar quando estiver fazendo força. Assim, ó.
Fez. Oomph.
-- Mas não era isso o que eu estava fazendo? O que eu fiz de errado? Estava relaxadão com a cabeça sobre as mãos, intrigado.
-- Não estou dizendo que você estava fazendo errado, meu bem... Estou só tentando te ensinar.
Ahn?
E falou sobre abdominais de um jeito, de outro; mexe uma perna pra cá outra pra lá, levanta o quadril, dobra pra direita, esquerda. Fiquei lá deitadão ouvindo aquilo tudo até ela levantar e ir tomar seu banho. Antes de ir se molhar voltou pra um último abdominal tão esquisito que mal me lembro onde vai o quê. Por fim, molhou-se lá. Reposicionei as pernas e continuei fazendo exatamente como antes. Oomph, um. Oomph, dois.
Não entendi lhufas do que ela disse.
O que se passa na cabeça das pessoas quando estão falando comigo? pensei. Quero dizer, com quem diabos ela estava falando? Por que comigo não era. Me senti como o veículo para um mundo de fantasia, onde ela discorria para legiões de interessados alegremente sobre um maravilhoso assunto totalmente alheio à minha existência.
Por que, cara, eu faço uns quinze ou vinte abdominais e acabou. Morri.
Tem vezes que eu me dou conta disso, não dos vinte abdominais, enfim, de súbito, estou falando com a guria, e de repente noto que o assunto é tão alheio à mim, me releva de tal modo, que é como se estivéssemos lá e tal, ela gemendo, se contorcendo, suando, Sim, sim, mais, mete mais, assim! É! e eu estou entusiasmado com a coisa quando percebo que ainda estou sentado na beira da cama, calça jeans e todo o resto.
Porra, se nem me relacionando estou me relacionado, porque eu tenho que dar a mínima pra relacionamento? Quero que se foda.
Já não basta aturar o contrário. Gente que diz pra você Nossa, você gosta disso? Cara, quem é você pra presumir do que eu gosto, e se espantar desse jeito? Daí você usa umas camisas pretas por uns tempos e o sujeito te convida pra leitura de poemas neo-góticos na casa dele. Tem tudo a ver contigo!
Argh!
Pessoas vêm dizendo há anos que esse mundo está perdido e ninguém escuta! Está perdido literalmente, ninguém consegue se encontrar. Todos vivem se esbarrando, metade te escuta e não te ouve, ou te ouve e não te escuta, sei lá, e a outra metade só fala qualquer merda, como se tanto fizesse você estar ali ou não.
Teve uma namorada pra quem eu disse Olha só, querida, do jeito que a gente está, eu vou deixar uma foto contigo pra você chamar de Namorado, porque tanto faz eu ou a foto.
Você vaga pelo mundo feito um fantasma. Vai ali, aqui, diz Isso sou eu, aquilo já nào, e é como se não fosse nada. Todos estão preocupados com Anjos, Evas, o Terceiro Impacto e a porra do mundo, mas você é foda-se, faz o que é certo, quem sabe você não ganha um tapinha nas costas, o quê? Você o quê? Não tou te ouvindo, mas escuta, o bom é fazer assim, faz aquili que você vai bem, quem sabe Asuka não passa um dia ou dois sem te chamar de idiota.
Daí ninguém entende porque todos os eus por aí gostam de ficar numa boa sozinhos, quem sabe ouvindo um Bach, sem ninguém pra perturbar. Se você me disse Todo mundo precisa de companhia eu te desafio a me arranjar uma. Botar uma guria sentada do meu lado é fácil, dá até pra conseguir por um preço módico. Agora, companhia mesmo? O caralho. Entenda como quiser.
Estava lanchando quando G. me falou Cara, eu não tou mais procurando conteúdo, Gulp, Vai com calma aí, doido, Porra, o que eu tou dizendo é que conversa séria só com uma meia dúzia tipo que nem você, Pois é, rapaz.
Esse negócio de escrever em blog está sendo pra mim como suar, você está lá correndo feito desesperado atrás de alguma coisa, todos aqueles rotos existindo como se estivessem com você e ao mesmo tempo como se você não estivesse lá, e você se esforça, tenta, tenta, e sua pra cacete. E não entende lhufas do que está acontecendo.
Meu primeiro suadouro existencial foi esquisotérico. Ainda compro os bons autores e ganhei ali boa parte da minha linguagem e interesse pelos seres humanos. Mas 90% é um absurdo idiota. Você tem o caminho espiritual, a verdadeira vontade, a magia prática, as permutações da cabala, a comunhão da deusa e do deus, rapaz, que loucura, e eu, onde eu entro nessa história, o que essa porra toda tem a ver comigo?
Não exalte seu ego, meu filho, que você é só um monte de merda que não interessa aqui. Substantivos abstratos inatingíveis inomináveis são muito mais importantes.
Oquei. Se você tá dizendo.
Daí me vêm os negos que dizem que a religião é o ópio do povo, e começam a babar o papo da luta.
Não que eu pense isso desse sujeito em particular ou que o lance ali seja o lance aqui, mas, estava eu falando, ou ouvindo, sobre esse projeto no morro com o camarada me explicando que o imbecil do arquiteto fez o projeto com a planta errada e ficou tudo uma bosta.
-- E você queria que ele tivesse feito o quê, se o diabo da planta do morro estava errada?
-- Ele é um elitista, um idiota, não pensou na comunidade, nem foi lá ver como é a realidade!
Essa parada de realidade sempre me deixa de um jeito esquisito.
-- Tá, daí ele sobre o morro, olha lá, vê que a planta tá toda errada. O que ele faz?
É, aham.
-- Pois eu te digo, ele vai ao gerente dele e diz: meu chapa, imagina se ele vai dizer meu chapa, mas eu estava bêbado, então, meu chapa, essa planta tá toda errada, assim não pode, assim não dá. SE o gerente NÃO estiver cagando, literalmente ou metaforicamente, TALVEZ ele vá ao departamente de cartografia, SE houver um e aquele mapa do morro não for uma relíquia do império, e quando ele pedir um mapa novo lá TALVEZ eles façam, TALVEZ façam direito e TALVEZ façam a tempo. Cada um babaca desses tem mil motivos pra cagar, desde prazo, até desinteresse passando por falta de recurso e prazer mórbido. Não adianta pixar o arquiteto, que o buraco burocrático é mais embaixo.
Esse arquiteto me deve uma, salvei ele perante o movimento social. Mas eu acho um vacilo que de todas as minorias, ele seja a absolutamente menor.
E se não se presta atenção nem nele, porque prestariam em mim?