Eu tenho um dilema sério a resolver: como ser pai e continuar solteiro. Parece fácil, mas não é. Porque botar a menina no mundo e largar na mão da mãe e dizer tchau não é ser pai.
Que puta cheiro gostoso de comida, escrever aqui é ruim porque o cheiro é bom, dá fome, e você começa a pensar em coisas que não tem nada a ver.
Tipo, agora é orégano. Eu adoro orégano. Acho que a velha aqui do lado está comendo alguma coisa com orégano e azeite. Nem sei se faz sentido isso, cheiro de orégano com azeite, mas eu acho assim mesmo. Deve ser pizza.
Eu gosto de vir aqui escrever, mesmo com o lance do cheiro. Primeiro, o capuccino é uma delícia. Segundo, porque eu gosto da meia-luz. Sim, é uma merda pra ler e pra escrever. Mas eu gosto. Que nem o lance do cheiro. É ruim, mas é bom. Terceiro. Livros. Quarto, o pessoal alternativo que vem aqui é inspirador.
Vem muita gente aqui fazer uma parada antes e depois do cinema. O lugar aproveita bem essa afinidade e oferece uns lanches "no tempo" pro pessoal esperando filme. Pros outros, o cardápio típico de um café. Daí o pessoal alternativo vem, fica entre os livros, vestidos alternativamente, e falando, e tal. Vêm pelos mesmos motivos que eu, todos; apesar de eu nunca ter visto ninguém escrevendo aqui.
Boa, P. Tu é o cara.
Como eu disse antes, eu acho inspirador. Vê ali na frente o guri da camisa vermelha com as pernas cruzadas. Vestido e sentado como eu, o desgraçado. Ele não faz a menor idéia do que fazer com a gracinha de cabelos curtos sentada com ele à mesa. Eu fico aqui pensando Que louco traz uma menina dessas em um café e pede uma coca-cola? Não interessa se ela é gordinha, ou se você não gosta de cafeína. Que porra é essa de cafeína, coca-cola tem cafeína! É intrigante. Aí depois de algum tempo ele chega um pouco pra frente, o papo rolando, e ele CUTUCA ela. Onde está o meu taco de
baseball? É espantoso.
Sei lá porque, eu sinto que essa é a minha mesa cativa. Quando cheguei tinham duas mulheres. Fiquei ali na mesa do meio, lendo o Bukowski, enfezado. A mulher olhou pra mim, acho que curiosa por causa do livro, mas não dá pra perdoar, ela tava na minha mesa. Quando foram embora eu me mudei. Aí deu vontade de pedir o capuccino.
Não CUTUCA, porra!
Às vezes eu me pergunto se lá do outro lado não é mais agradável. Tem um sofá. Eu vejo daqui deste lado, parece uma ilha distante; com um mar de cabeças e livros no meio. Tem mais quadros de fotos lá, mas uma delas me assusta. Fico aqui no meu porto seguro; aqui eu já conquistei a MINHA mesa.
Cara, me trás outro capuccino? não tô a fim de dormir cedo mesmo.
Seria muito maneiro sair correndo e pular aqui do parapeito. Eu NUNCA alcançaria o outro lado, só ia me esborrachar em cima dos CDs.
Da última vez que eu vim aqui com uma galera, combinamos de tocar uns
blues. Lá em casa, a gente põe os amplificadores do lado do piano, vocês me dão uma ajuda, eu tiro uns acordes mais ou menos. É, a gente pode tocar fulano, e sicrano. Pô, eu tava mesmo louco pra tirar aquela. Vai ser muito bom.
Não rolou. Bando de alternativos de merda.
Vou embora, também, acabar com essa pose de merda. Aliás, pô, vou lá embaixo dar uma olhada nas ciências sociais. Aliás, vou ficar é aqui mesmo porque o meu outro capuccino acabou de chegar. Viajei agora e esqueci completamente dele.
[Daí minhas folhas em branco acabaram. É foda quando isso acontece. Pensei mais umas paradas que eu esqueci completamente. Mas acabei indo mesmo lá nas ciências sociais.]